Coluna do Samuel

Política carcerária no Brasil: O papel do Hip-Hop na ressocialização de ex-presos


As políticas aplicadas nas cadeias do Brasil e do mundo se distinguem muito. Para se ter uma breve noção, podemos analisar as cadeias ao redor do globo. Localizada ao norte da Europa, a Noruega, em 2014, registrou apenas 29 homicídios e possui, segundo levantamento feito pelo Instituto Avante Brasil, o 8º país com a menor taxa de homicídios no mundo, gerando, após cumprimento da pena, uma redução de 80% na reincidência no crime. Já no Brasil, país com a 4º massa carcerária do mundo, de 2000 à 2014, o país ganhou 389.477 presos, um aumento de 167% e possui uma taxa de 70% de reincidência no crime. Porém, o número de vagas nos presídios (faltando, atualmente, 250.318 vagas), não foi acompanhado com tal crescimento, gerando as condições precárias de abandono, marginalização, superlotação, falta de saneamento básico, proliferação de epidemias, entre outros, que predominam neste cenário brasileiro.

E para entendermos melhor o que esse cenário representa no cotidiano dos brasileiros, analisaremos os recentes dados da Anistia Internacional, importantes informações sobre a violência contida no mundo. Ao colocar o Brasil em destaque, e enfatizar que foram 278.839 ocorrências de homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes decorrentes de intervenção policial no Brasil, de janeiro de 2011 a dezembro de 2015, permite fazer uma comparação com a guerra na Síria que, também de janeiro de 2011 a dezembro de 2015, houve um extermínio de 256.124 cidadãos no país. Porém, enquanto pessoas demonstram afeto pelo país dirigido por Bashar Al-Assad, no Brasil o problema é maior e tende a ficar. Preferem ocultar o problema e não assumi-lo tão cedo como uma necessidade de mudança, revelando que mesmo não estando em guerra, o aniquilamento de pessoas é superior a um país que permanece em estado de guerra há mais de cinco anos.

E o que o Hip-Hop tem a ver com isso tudo? O termo RAP (Rhythm And Poetry), traduzido como ritmo e poesia, surgiu na Jamaica na década de 1970. E no começo da década de 60, foi levada aos bairros pobres de Nova Iorque, dando mais importância a esse estilo musical diferenciado, com batidas rápidas e aceleradas, e a letra como forma de manifesto, instruída de muita informação e conhecimento. No Brasil, chegou por volta dos anos 80 em metrôs de São Paulo com movimentos e início de formações de grupos, que atuavam em bailes e discos, para expressarem os reais sofrimentos e perdas vividas na realidade periférica.


Região Abissal, pioneiros do rap nos anos 80 em uma apresentação na TV Cultura

“Ao contrário do que você queria, tô firmão, tô na correria [...]”, foi dito por Marcos Fernandes de Omena, o famoso rapper ‘’Dexter’’, que viveu a infância e parte da adolescência na periferia do Jardim Calux. Após conhecer o RAP em 1990, e se tornar militante deste movimento, sofreu decaídas e passou 13 anos na prisão, onde escreveu seu álbum ‘’Exilado Sim, Preso Não’’, explicitando a realidade vivida atrás das grades. Dexter tenta mostrar por meio de seus versos, de fácil entendimento e alta acessibilidade, um caráter ressocializador destinado a ex-presos que se sentem angustiados pelas mazelas sofridas durante a prisão, não caindo na tentação do crime novamente e se mantenham firmes na caminhada dura, difícil e preconceituosa

Rapper Dexter

“Filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor’’ e ‘’como fazer duas vezes melhor, se você tá, pelo menos, cem vezes atrasado’’, são trechos da música 'A Vida é Desafio', do grupo Racionais MC’s , considerados como um dos mais relevantes e influentes do RAP brasileiro. Os trechos carregam consigo, uma história dolorosa sobre a escravidão no Brasil. Negros africanos eram transportados de suas origens, para serem comercializados e se tornarem escravos de fazendeiros e senhores de engenho, em navios negreiros de péssimas condições, que ocasionavam a morte de muitos nesta longa viagem sem volta. Após quase 300 anos de puro sofrimento e sendo ainda o único país com praticas escravistas, com o surgimento de diversos movimento abolicionistas e cada vez mais direitos, os negros adquiriram, através da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, a liberdade, porém como diz Fabio Brazza, rapper brasileiro que aborda diversas criticas sociais do cenário brasileiro na atualidade, ‘’Não por questão humanista, Mas por pressão imperialista’’. E hoje, depois de 128 anos passados da lei que pôs fim a escravidão no Brasil, ainda permanecem alguns dos traços da época sofrida, evidenciada em problemas como o racismo, a desigualdade social, a violência, que sempre prejudicam a população excluída. Um país onde o sistema carcerário se coincidem com os navios negreiros, onde favelas são senzalas. Nascer negro é uma vitória, ‘’ser duas vezes melhor’’ é ganhar uma guerra.

Em suma, o papel do RAP pode garantir muitos benefícios para a ressocialização de ex-presos. O engajamento das secretarias de cultura dos municípios na criação de centros culturais daria uma voz maior para essa população. Serem administrados por assistentes sociais, auxiliando esses presos a extravasarem seus sentimentos sofridos, por meio de muita rima e poesia, até porque “Seres humanos não são vinhos, não melhoram só de ficarem guardados” (Dexter), e os exercitando da maneira acessível, possibilitaria uma menor reincidência no mundo do crime. Em um longo prazo, o fechamento das cadeias, fruto de um trabalho sucedido e muito bem aplicado.


[Álbum: Exilado sim, Preso não -> https://www.youtube.com/playlist?list=PL2JT9FPOSeHFS5OJ4zmhD0-HBmKR_CIR9] FONTES:

1-https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/no-13-de-maio-rap-questiona-abolicao-da-escravidao-brasil/http://institutoavantebrasil.com.br/noruega-como-modelo-de-reabilitacao-de-criminosos/http://ponte.cartacapital.com.br/album-de-dexter-sobre-prisoes-faz-dez-anos-e-pouca-coisa-mudou/

2-http://fernandorodrigues.blogosfera.uol.com.br/2016/04/26/numero-de-presos-no-brasil-mais-que-dobra-em-14-anos/

3-http://www.vermelho.org.br/noticia/270713-374

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